novembro 18, 2006

O escravo de Ménon

Há uma parte do diálogo entre Ménon e Sócrates que acho especialmente curiosa. Quando este procura provar que "aquilo a que chamamos aprender não é mais do que recordar" chamando um escravo de Ménon para mostrar o que pensa.
Uma verdadeira "aula".
A partir de um desenho, possivelmente no chão, na areia, de um quadrado de dois pés de comprimento, Sócrates coloca ao escravo a questão de quanto terá de comprimento o lado de um quadrado cuja área seja dupla da área do primeiro.
- É evidente, Sócrates que terá o dobro (...)
- Dizes que o espaço duplo se forma da linha dupla? Repara bem: não me refiro a um espaço comprido deste lado e curto daquele, pretendo uma superfície como esta, igual em todos os sentidos mas que tenha uma extensão dupla, ou seja de oito pés. Ainda pensas que se forma sobre a linha dupla? (...) Se acrescentarmos a esta linha do mesmo comprimento a nova linha não será dupla da primeira? Tracemos então quatro linhas semelhantes a esta, chamas a isto um espaço de oito pés?
- Sim.
- Mas este novo quadrado não compreende outros quatro, cada um dos quais é igual ao primeiro, que mede quatro pés?
- Sim.
- Então qual é a grandeza dele? Não é quatro vezes maior?
- Sem dúvida.
- Mas o que é quatro vezes maior é duplo?
- Nao,por Zeus!
- Então o que é?
- É quádruplo.
- Portanto, meu rapaz, com a linha dupla não se forma um espaço duplo, mas sim quádruplo.
- É verdade.
- Quatro vezes quatro não são dezasseis?
- Sim.

O diálogo prossegue acabando o escravo por chegar à conclusão de que a linha que leva à área dupla tem que ser maior que dois pés e menor que quatro pés. E admitindo que não sabe a resposta.
Sócrates remata:
- Viste, Ménon,o percurso que ele fez no caminho da reminiscência? A príncipio, sem saber qual é o lado do quadrado de oito pés (e ainda não o sabe) julgava sabê-lo e respondia com segurança, como se o soubesse, sem suspeitar da sua ignorância. Agora, já avalia a dificuldade, embora não saiba, ao menos já não supõe que sabe.(...)
facilitamos-lhe a marcha para descobrir a verdade, porque daqui em diante, embora não o saiba, terá o prazer de investigar, ao passo que anteriormente, não vacilava em afirmar e repetir perante uma multidão, com inteira confiança, que o duplo de um quadrado se forma sobre o dobro do lado.


Por vezes quase me sinto qual Sócrates à espera que os meus alunos encontrem alguma reminiscência das suas vidas passadas, falta-me é a sua arte.

4 comentários:

Anónimo disse...

E quando vimos que eles, os alunos, acabam por não ter nenhuma remeniscência, acabos por pensar que somos nós que temos que criar para a vida futura deles factos que actuem como remeniscências nesse futuro. E aí começa o problema ... e o desafio.

Anónimo disse...

Acabamos,... não acabos, desculpa

Joao Augusto Aldeia disse...

Creio que Sócrates tira uma conclusão tão errada quanto a do escravo de Ménon. O que o escravo faz é aplicar uma noção de proporção linear que já tinha aprendido antes. Sócrates parte do princípio de que o escravo não aprendeu nada, e que tudo o que sabe é inato (ou melhor, reminescente de um estado anterior). Ora, a expressão matemática da proporção feita pelo escravo, apesar de errada, ela própria já é bastante sofisticada e certamente resultado de uma aprendizagem anterior.

Provavelmente Socrates encara o escravo tal como os iluministas encaravam o "bom selvagem", um indivíduo "puro", não contaminado pela civilização (educação). Mas tal coisa, como se sabe, não existe, não pode existir - ainda que grande parte da filosofia subjacente ao nosso ensino e aos nossos métodos de ensino, se apoie nessa utopia.

Podemos, no entanto, "actualizar" o diálogo socrático no sentido de que a reminiscência dos actuais alunos não vem de um estado anterior, mas de um ano lectivo anterior, algo aprendido noutra aula, noutro ano, com outro professor, e que não se consolidou na memória - do qual apenas ficou uma "recordação vaga". Resultados perversos duma outra utopia, a de que a "memorização" ("empinanço") era uma coisa inferior e que a verdadeira aprendizagem se faria pela "descoberta" - algo com que Sócrates certamente concordaria, e mal.

maria disse...

J.A. pois é verdade. Nós não acreditamos naquilo em que Sócrates parece acreditar: os conhecimentos não são inatos nem reminiscências do mundo das ideias. E também concordo que na maioria dos alunos há uma vaga lembrança- quando há-de que já ouviram qualquer coisa parecida com aquilo de que falamos. Também já embarquei, em tempos, na maravilha da descoberta do aluno, por si próprio, dos conceitos matemáticos, como se ele os estivesse a redescobrir. Mas continuo fascinada pelo discurso de Sócrates, essa arte de conduzir um diálogo com o aluno de modo a que ele chegue onde queremos e se aproprie dos conhecimentos. Acho que não sei fazer.